Doença renal silenciosa: triagem nas UBS do Nordeste ganha tração

Programas piloto em Pernambuco e Ceará incorporam testes de creatinina e relação albumina/creatinina na rotina de hipertensos e diabéticos na atenção primária.

"O rim falha em silêncio. Quando o paciente sente náusea e cansaço extremo, muitas vezes já estamos diante de estágio avançado." — Enfermeira da estratégia Saúde da Família, zona da mata pernambucana
Ilustração sobre triagem renal nas UBS

A doença renal crônica raramente dói no início. Pressão alta e diabetes desgastam os glomérulos aos poucos, sem sintomas que levem o paciente ao médico. No Brasil, estima-se que milhões de pessoas vivam com algum grau de comprometimento renal sem diagnóstico — concentração maior nas regiões onde o acesso a exames especializados é mais difícil.

Desde 2024, Pernambuco e Ceará testam protocolos de rastreio nas unidades básicas de saúde. A proposta é simples na teoria: identificar pacientes de risco — hipertensos, diabéticos, com histórico familiar — e solicitar creatinina sérica e exame de urina para albuminúria. Resultados alterados disparam encaminhamento para nefrologia antes da urgência.

Como funciona o piloto

Em 42 UBS de Pernambuco, enfermeiras da estratégia Saúde da Família receberam capacitação para classificar risco e coletar amostras. O estado contratou laboratório regional para processar testes com prazo máximo de cinco dias. Pacientes com taxa de filtração glomerular estimada abaixo de 60 ml/min/1,73m² ou albuminúria persistente são marcados no prontuário eletrônico para acompanhamento trimestral.

No Ceará, o modelo é semelhante, com adição de teleconsulta com nefrologistas do Hospital Universitário para casos intermediários. A ideia é evitar que todo paciente com alteração leve precise deslocar-se à capital, enfrentando filas da atenção especializada.

Primeiros resultados

Dados preliminares de Pernambuco, referentes ao primeiro semestre de 2025, indicam que 8,4% dos hipertensos rastreados apresentaram alteração renal leve a moderada — estágios 2 e 3 da classificação KDIGO. Dessas pessoas, 62% desconheciam o diagnóstico. O número alinha-se a estimativas internacionais, mas ganha peso local: em municípios do sertão, a descoberta ocorreu antes de qualquer internação por descompensação.

O Ceará reportou redução de 18% nas internações por doença renal em estágio terminal em dois municípios piloto, comparando 2024 e 2025. O dado ainda não foi publicado em periódico revisado por pares; a secretaria estadual classifica como "indicativo promissor", não como evidência definitiva.

Barreiras na atenção primária

Agentes comunitários e enfermeiros consultados destacam obstáculos recorrentes: falta de reagentes em algumas unidades, prontuário eletrônico instável, rotatividade de profissionais e resistência de pacientes que não percebem necessidade de exame sem sintomas. "Explicar que o rim está ruim quando a pessoa se sente bem é o maior trabalho", resume uma enfermeira de Caruaru.

A capacitação continuada aparece como fator crítico. Estados que investiram em módulos presenciais e material impresso para equipes tiveram adesão superior aos que limitaram a orientação a vídeo gravado.

Conexão com a fila de diálise

Rastrear não cura, mas muda o tempo de resposta. Pacientes identificados em estágio 3 podem receber orientação dietética, controle rigoroso da pressão e medicamentos que retardam progressão — como inibidores da ECA ou bloqueadores do receptor de angiotensina, quando não contraindicados. O objetivo é que menos pessoas cheguem à diálise de emergência, sem preparo vascular e sem planejamento familiar.

A conexão com a reportagem sobre filas de diálise é direta: estados que detectam tardiamente concentram demanda no estágio terminal, sobrecarregando clínicas e centros de transplante. Prevenção na UBS não substitui expansão de vagas, mas pode reduzir a pressão de entrada.

Próximos passos

O Ministério da Saúde avalia incorporar indicadores de rastreio renal aos dados do Previne Brasil, o que vincularia repasse financeiro à detecção precoce. Especialistas debatem se a medida incentiva volume de exames sem qualidade de acompanhamento — risco de "caça a números" sem impacto clínico.

Para 2026, Pernambuco pretende expandir o piloto para mais 30 UBS; o Ceará negocia parceria com universidade federal para publicação dos resultados. Se os dados se confirmarem, o Nordeste pode oferecer ao país um modelo replicável — baseado na atenção primária, onde o SUS ainda tem capilaridade que hospitais de referência não alcançam.