"Transplantar mais não é só questão de hospital. É identificar potencial doador, manter órgão viável e ter equipe disponível às três da manhã." — Coordenador de captação, centro de referência no Sul
O transplante renal é, para pacientes elegíveis, a terapia que oferece melhor qualidade de vida e menor custo ao sistema a longo prazo. O SUS cobre o procedimento e o acompanhamento pós-transplante com imunossupressores. Ainda assim, a maioria das pessoas em terapia substitutiva permanece em hemodiálise — muitas por anos, outras até o fim da vida.
Em maio de 2026, o Registro Nacional de Transplantes listava 28.417 candidatos aguardando rim de doador falecido. O número oscila mensalmente, mas a tendência de fundo é de estabilidade frustrada: entram novos pacientes na fila quase na mesma medida em que transplantes são realizados.
Taxa de doação: avanço desigual
A taxa de doadores efetivos por milhão de habitantes (PME) é o indicador mais usado internacionalmente. O Brasil alcançou 17,2 PME em 2025 — melhor desempenho da série histórica, mas ainda distante de países como Espanha e Portugal, que superam 40 PME. Dentro do país, a diferença é abissal: Santa Catarina e Paraná lideram; estados do Norte aparecem com taxas abaixo de 8 PME.
Essa desigualdade não reflete apenas cultura ou religiosidade. Hospitais sem protocolo de morte encefálica, falta de leitos de UTI para manutenção do potencial doador e equipes de captação sobrecarregadas explicam parte do gap. Em entrevista, um coordenador de captação no Pará descreveu situações em que a família autorizou a doação, mas o órgão não pôde ser recuperado por atraso logístico.
Doador vivo e doador falecido
Parte relevante dos transplantes renais no Brasil ainda provém de doadores vivos — em geral familiares. O procedimento exige compatibilidade e avaliação rigorosa de risco para o doador. Campanhas de conscientização enfatizam a doação após morte encefálica, que amplia o pool de órgãos sem expor pessoas saudáveis a cirurgia.
A legislação brasileira presume consentimento para doação em casos de morte encefálica quando a família não se opõe. Na prática, a conversa com parentes permanece decisiva. Profissionais de captação relatam que o tempo de diálogo é curto e o ambiente hospitalar, muitas vezes, hostil ao processo — corredores lotados, falta de espaço privado, equipe de UTI sem treinamento em abordagem familiar.
A fila e seus critérios
A ordem de prioridade na fila segue critérios técnicos: compatibilidade sanguínea, tempo em diálise, idade, entre outros. Pacientes sensibilizados — com anticorpos que dificultam o cruzamento — podem esperar anos a mais. O sistema tenta equilibrar justiça e eficácia, mas a opacidade parcial dos algoritmos gera desconfiança em grupos de pacientes.
Associações de transplantados cobram maior transparência nos critérios de alocação e publicação periódica de estatísticas por centro transplantador. Alguns hospitais já divulgam dados próprios; outros resistem, citando complexidade técnica.
Financiamento e pós-transplante
O custo do transplante para o SUS é concentrado no primeiro ano — cirurgia, internação e medicamentos. Depois, o paciente depende de acompanhamento ambulatorial e imunossupressão contínua. Falhas no seguimento levam à rejeição e, em casos graves, à perda do enxerto — retornando o paciente à diálise.
Em 2024, o Ministério da Saúde reforçou a rede de laboratórios para monitorar níveis de imunossupressores, reconhecendo que a falta de exames acessíveis era causa de reinternações evitáveis. A medida ainda está em implementação desigual.
O que pode mudar
Especialistas listam prioridades repetidas em congressos: expandir equipes de captação 24 horas, integrar protocolos de morte encefálica na graduação médica, investir em transporte aéreo de órgãos entre estados e reduzir burocracia para registro de doadores. Nenhuma é novidade; o desafio é executar em escala continental.
Enquanto a fila não arrefece, milhares continuam em diálise com expectativa incerta. O transplante não é solução para todos — há contraindicações clínicas e limites de idade — mas para quem se enquadra, cada mês de espera é mês a mais de fadiga, restrição hídrica e dependência de máquina. O Brasil sabe transplantar; ainda aprende a doar em sistema.