"O paciente não entra na fila quando o rim falha — ele entra quando alguém consegue registrar a indicação e encontrar vaga em uma clínica credenciada." — Coordenador de nefrologia, secretaria estadual do Nordeste
Entre janeiro e abril de 2026, o Rim & Leitura solicitou a 12 secretarias estaduais de saúde o tempo médio de espera para início de hemodiálise no SUS, discriminado por capital. Onze responderam dentro do prazo legal; Roraima enviou dados parciais. O resultado é um retrato fragmentado, mas coerente com o que pacientes e nefrologistas descrevem há anos: a fila não é nacional, é um mosaico de gargalos locais.
Em Curitiba e Porto Alegre, o intervalo mediano entre a indicação formal e a primeira sessão ficou abaixo de 30 dias. São Paulo apresentou mediana de 38 dias, com cauda longa: um em cada cinco pacientes esperou mais de 90 dias. Já em Recife, Fortaleza e Belém, a mediana superou 140 dias. Manaus registrou os piores números — 187 dias de mediana, com relatos pontuais de espera superior a um ano.
Como a fila é formada
A terapia renal substitutiva no SUS depende de uma cadeia que começa muito antes da máquina de diálise. O paciente precisa de encaminhamento, confirmação diagnóstica em estágio avançado, vaga em serviço credenciado e, em muitos casos, preparo de fístula arteriovenosa. Cada elo falha de maneira diferente conforme o estado.
Em capitais com rede hospitalar densa, o gargalo costuma ser a vaga na clínica privada conveniada. Em cidades menores do interior, o problema antecede: falta nefrologista na atenção especializada e o paciente só chega ao estágio terminal após internações repetidas. A portaria que regulamenta o acesso exige critérios clínicos claros, mas a implementação varia.
O peso do financiamento
A hemodiálise ambulatorial é paga por sessão, com valores definidos em tabela nacional. Municípios e estados negociam contratos com clínicas que, em teoria, deveriam absorver a demanda regional. Na prática, a abertura de novas unidades enfrenta barreiras de infraestrutura hídrica, descarte de efluentes e escassez de técnicos de enfermagem especializados.
O Tribunal de Contas da União, em auditoria publicada em 2025, apontou concentração de contratos em poucos fornecedores em seis estados. O relatório não prova fraude, mas sugere dependência que reduz capacidade de resposta quando a demanda cresce — como ocorreu após a pandemia, quando muitos pacientes com doença renal crônica perderam acompanhamento.
Vozes da fila
Antônio, 54 anos, morador de Olinda, recebeu indicação de diálise em novembro de 2025. Conseguiu a primeira sessão em maio de 2026. "Fiquei internado duas vezes por hipercalemia enquanto esperava", relata. "Minha esposa ligava toda semana para a secretaria. A resposta era sempre que estavam 'aguardando vaga'."
Histórias como a de Antônio não aparecem nos sistemas de regulação como atraso — muitas vezes o relógio só começa a contar após o cadastro na central, não na consulta em que o nefrologista sinaliza a necessidade. Essa diferença de critério entre estados dificulta comparações e mascara a extensão real do problema.
O que os gestores dizem
Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que monitora indicadores de terapia renal substitutiva pelo Sistema de Informação da Terapia Renal Substitutiva e que portaria de 2024 reforçou a obrigatoriedade de registro. Reconheceu "desafios de capacidade instalada" em regiões Norte e Nordeste, citando programas de incentivo à capacitação.
Secretarias contactadas apontaram esforços de expansão: Pernambuco anunciou contrato com duas novas clínicas em 2026; Ceará citou transporte sanitário para pacientes do interior que se dialisam na capital. São medidas pontuais, insuficientes para equalizar o acesso, mas que indicam onde a pressão política surte efeito.
Perspectivas
Especialistas consultados convergem em uma recomendação: investir em detecção precoce para reduzir a chegada desorganizada ao estágio terminal. A triagem em UBS, tema de reportagem paralela nesta edição, não elimina a necessidade de diálise, mas permite planejar o início do tratamento com mais segurança clínica.
Enquanto isso, a fila segue sendo o termômetro mais cruel da nefrologia pública brasileira. Os números de 2026 não surpreendem quem trabalha no SUS — mas documentam, com datas e medianas, uma desigualdade que o país ainda trata como exceção regional, quando é regra estrutural.